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Capítulo 4 · a parábola

A Parábola

Santos, Barcelona, PSG, Al-Hilal, Santos — 2009 · 2013 · 2017 · 2023 · 2025

A gente errou o problema. A pergunta que ficou colada em Neymar durante quinze anos é uma pergunta sobre outra pergunta. Perguntam se ele é o novo Pelé. Se ele tem altura de Rei. Se a mala dele carrega a coroa. Ninguém percebe que o cargo que estamos oferecendo pra ele foi extinto em algum ponto entre 1994 e 2002, e ele entrou numa vaga que a empresa fechou.

Pelé foi Rei porque o mundo do futebol, entre 1958 e 1970, ainda cabia dentro de uma televisão em preto e branco. O mundo estava jogando o mesmo campeonato — a Copa do Mundo — e Santos era o clube mais glamouroso do planeta em turnê. Ser o melhor da Seleção era, quase por definição, ser o melhor do mundo. A camisa amarela era a moldura. Não havia outra.

Quatro contratos, duas décadas

O caminho de Neymar é conhecido de cor. Santos em 2009. Barcelona em 2013 por 88 milhões de euros — era um sofrimento aceitável, porque Barcelona era Messi, era MSN, era um projeto. PSG em 2017 por 222 milhões — o maior contrato da história do futebol, e o começo de uma pergunta desconfortável: por que ele foi embora do time que estava ganhando tudo? Al-Hilal em 2023 por 90 milhões — o que era isso? Um jubileu? Uma aposentadoria com dividendos? O contrato mais caro da Saudi Pro League.

Valor de cada transferência de Neymar Jr., em milhões de euros. A queda a zero em 2025 é o retorno livre ao Santos. Fontes: Transfermarkt, Wikipedia. Coletado em 16/07/2026.

Cada uma dessas transferências foi um recorde de alguma coisa. Cada uma foi paga por um pagador diferente e comprou um pedaço diferente de futebol. É esse o desenho de uma carreira que já não coincide com o desenho de uma Copa. Pelé nunca precisou escolher entre o clube e a camisa. Neymar precisou escolher, e escolheu várias vezes, e cada escolha alterou um pouco o que a camisa passou a significar — para ele e para a gente.

O joelho

Existe uma versão dessa mesma história contada só pelo joelho esquerdo do Neymar. Metatarso em fevereiro de 2018, quando ele voltou tarde para Copa. Ligamentos do tornozelo em 2019. Pé quebrado no PSG em 2020. Ligamento cruzado em 2023, no primeiro Al-Hilal-Al-Ittihad da vida dele — e que, na prática, foi o fim da carreira dele como jogador de nível europeu. Cirurgia atrás de cirurgia, e a peneira do tempo peneirando o que restava.

Em 31 de janeiro de 2025 ele voltou pro Santos, de graça. Em 31 de dezembro do mesmo ano, renovou até dezembro de 2026. No meio, mais uma cirurgia — meniscal, mesmo joelho. Ele fez o pênalti do 90+10 contra a Noruega. Foi o único gol brasileiro na Copa. Foi, também, quase certamente, o último gol dele em uma Copa. E ele tem 34.

Um cargo que não existe

Quando a gente cobra de Neymar o fantasma do Pelé, a gente está cobrando dele que faça caber, na moldura de 1970, uma carreira desenhada para a estrutura de 2015. Não vai caber. E é injusto cobrar. O contrato dele com Barcelona já disse tudo o que precisava ser dito: no mesmo ano em que ele estreou pela Seleção principal, o clube dele passou a jogar mais partidas ao ano do que a maior parte das seleções juntas. Isso muda a matemática do corpo, do tempo, da atenção. O jogador que a gente formou não é o mesmo tipo de jogador que era possível formar antes.

Neymar é o maior artilheiro da história da Seleção. É esse o dado que fica de fora das conversas de bar, e é um dado importante. Setenta e nove gols. Mais que Pelé, por uma margem que parecia impossível. E ainda assim — e essa é a parte verdadeiramente amarga — a gente sente que ele fracassou. Não fracassou de dado. Fracassou de narrativa. E é essa a distância entre o futebol como esporte e o futebol como identidade nacional.

Contraponto — leitor honesto

Pode ser que essa história toda seja indulgente demais. Neymar teve o corpo, o time, o técnico e o país inteiro à disposição em 2014 e em 2018. Em 2022 esteve à altura da própria camisa por noventa minutos e não à altura pelos noventa seguintes. Não é o cargo que sumiu — é que ele nunca ocupou o cargo. Messi ganhou a Copa aos 35. Ronaldo Fenômeno, brasileiro, ganhou aos 25. Não há estrutura industrial nova que esconda uma final não jogada, um pênalti não batido, um Chile 2014 vencido no drama. Talvez a parábola seja uma delicadeza que a gente inventou para não olhar direto pra dentro.