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Capítulo 5 · a experiência

A Experiência

Anúncio em 26/05/2025 · eliminação em 05/07/2026 · segue no cargo

A gente fabricou um técnico salvador antes mesmo de ele existir. Passamos dois anos atrás dele. Era 2023, era 2024, e a CBF, no meio do próprio labirinto jurídico, insistia que o problema da Seleção tinha nome estrangeiro e sotaque italiano. Era Ancelotti. Ancelotti ia consertar. Ancelotti sabia ganhar Copa. E, quando finalmente chegou, ficou a impressão de que a gente havia comprado uma resposta antes de ter formulado direito a pergunta.

O anúncio veio no dia seguinte à posse de Samir Xaud como presidente da CBF, em 26 de maio de 2025. Samir chegou depois que Ednaldo Rodrigues foi afastado por decisão judicial — o Tribunal do Rio confirmou que uma assinatura tinha sido falsificada no documento que garantia a eleição de 2022. É importante lembrar dessa cena. O contrato do italiano foi apressado exatamente porque o presidente que o escolheu sabia que ia cair. É essa a Confederação que a gente confiou o técnico mais caro da história para consertar o que sobrou de futebol na Seleção.

A campanha

Grupo F13/06Marrocos1 a 1E
Grupo F19/06Haiti3 a 0V
Grupo F24/06Escócia3 a 0V
16 avos01/07Japão2 a 1V
Oitavas05/07Noruega1 a 2D
Campanha completa do Brasil na Copa 2026. Sete pontos na fase de grupos, virada nos 16 avos, eliminação nas oitavas. Fontes: FIFA, ESPN. Coletado em 16/07/2026.

Cinco jogos. Uma virada bonita contra o Japão que os narradores insistiram em chamar de gesto de personalidade — a primeira reviravolta em mata-mata de Copa desde a vitória contra a Inglaterra nas quartas de 2002. Foi mesmo. Só que ficou claro rapidamente que precisar de personalidade em cima de um Japão não fala bem do time. E, quatro dias depois, contra uma Noruega organizada e um Haaland que apareceu quando teve de aparecer, a personalidade acabou aos setenta e nove minutos.

O que Ancelotti não podia consertar

Ancelotti é a evidência mais cara de uma tese que se recusa a morrer: a de que a Seleção é uma questão de comando. Se o técnico for bom o suficiente, o Brasil volta a ganhar. Foi essa a lógica de trazer Dorival Júnior depois de Diniz depois de Ramon Menezes depois de Tite depois de Dunga. É essa lógica que justificou pagar cinco vezes o salário de Dorival ao italiano.

O problema é que o técnico não escala o time. O técnico escolhe o time. Quem escala o time é a estrutura de formação que entrega jogadores a cada quatro anos. Essa estrutura, hoje, está fora do país. É o Real Madrid quem forma Endrick e Vinícius. É o Chelsea quem forma Estêvão. É o Barcelona quem forma Vitor Roque. É o Palmeiras quem chega mais perto de formar dentro de casa, mas mesmo o Palmeiras fecha os contratos de exportação antes dos dezesseis. Ancelotti pega o pacote no fim da esteira e tenta montar um conjunto em seis dias de treino. Nenhuma delicadeza de comando resolve isso.

O italiano fica

Rodrigo Caetano, coordenador executivo das seleções da CBF, foi claro depois da eliminação: Ancelotti segue. Segue rumo ao ciclo de 2030. É a resposta institucional de quem investiu em uma tese e não tem tempo para trocá-la. Aos sessenta e sete anos, ele voltará no fim de julho, depois de umas semanas de descanso em Vancouver com a família, e vai começar a planejar a próxima Copa. É esperado que a gente encare isso com a mesma esperança do primeiro dia.

Não vai dar. Não porque o italiano seja ruim. Ele não é. Ganhou Champions. Ganhou LaLiga. Ganhou tudo o que dava para ganhar em clube. É por isso mesmo que o teste dele — a Copa 2026 — é útil: prova que o teto de um técnico de classe mundial, na Seleção brasileira contemporânea, é as oitavas de final. O problema, portanto, está em outra sala.

Contraponto — leitor honesto

Um ano é pouco. Ancelotti pegou o time no meio das Eliminatórias, montou uma convocação sob pressão, herdou lesões de última hora e ainda assim entregou uma fase de grupos limpa e uma virada em mata-mata. É esperar sensato colocar em cima dele uma tese estrutural de três décadas? Talvez o julgamento certo seja em 2030, com um ciclo inteiro no banco. E, se em 2030 o resultado ainda for oitavas ou quartas, aí sim a evidência estará em pé — e não uma amostra de cinco jogos colhida sob luto.